Vender um computador vivo, feito de um pedaço de ser humano… Parece uma loucura total, impossível de conseguir exceto em filmes de ficção científica. E ainda assim, estamos lá. A empresa Cortical Labs, laboratório australiano, comercializou, pela primeira vez, um computador que funciona utilizando neurônios humanos integrados diretamente em seu sistema. Agora você pode comprá-lo por US$ 35.000 ou usá-lo remotamente por meio do Cortical Cloud.

Sem tempo para ler? Descubra esta novidade em formato de áudio no nosso podcast Vitamine Tech, apresentado por Adèle Ndjaki. ©Futura

A Cortical Labs lançou o CL1, um computador biológico que funciona, mais precisamente, graças aos organoides, réplicas quase perfeitas de órgãos humanos. Portanto, fique tranquilo, não se trata de cortar parte do cérebro de um indivíduo e colocá-lo no centro de um dispositivo eletrônico. Neste caso específico, trata-se de neurônios cerebrais cultivados em laboratório. Esses organoides são criados a partir de células-troncoque foram “programados” para se transformarem em aglomerados de células que reproduzem o funcionamento do córtex cerebral humano.

Um verdadeiro feito tecnológico que combina biologia e ciência da computação! Os neurônios são cultivados em chips em silício capaz de enviar e receber sinais elétricos usando eletrodos integrado. Esses sinais tornariam possível conectar o cérebro biológico para o sistema computacional. E esta ligação criaria uma interacção suave entre os neurónios e o computador, o que permitiria aos neurónios adaptarem-se rapidamente ao seu ambiente digital e “comunicarem-se” eficazmente com o sistema.


Dois pesquisadores no laboratório. © D Theron/peopleimages.com, Adobe Stock

Os computadores biológicos funcionam de maneira diferente dos computadores clássicos. Esses computadores usam reações químicas enquanto os computadores comuns são baseados em circuitos de silício. E é aqui que tudo se torna realmente muito interessante, porque como qualquer organismo vivo, as células de que estamos a falar podem adaptar-se, desenvolver-se e fazê-lo de forma autónoma. É um pouco como o que acontece em nosso cérebro quando aprendemos. Nossos neurônios reagem de maneira diferente dependendo da informação que recebem. Ao contrário de um computador, que opera em binário com os números 0 e 1, um neurônio pode ter muitos estados diferentes, permitindo armazenar mais informações. E isto é muito parecido com as redes neurais da inteligência artificial, um sistema que também tenta copiar a forma como o nosso cérebro aprende.

Um computador meio máquina, meio humano?

Fundir humanos com máquinas é um sonho que fascina os humanos há muito tempo. Mas hoje já não falamos apenas de implantes eletrônicos no corpo humano. Não, os pesquisadores já trabalham em computadores biológicos há algum tempo. A mesma equipe australiana conseguiu, em 2022, fazer com que os neurônios jogassem o videogame Pong usando essa tecnologia. É de tirar o fôlego!

Outros pesquisadores também treinaram esses neurônios para reconhecimento de voz, e cientistas chineses integraram recentemente esses organoides cerebrais em robôs. E se voltarmos um pouco mais, em 2012, pesquisadores do Scripps Research Institute, na Califórnia, criaram o primeiro computador biológico, um dispositivo capaz de decifrar imagens usando biomoléculas. Em 2016, um projeto europeu desenvolveu um supercomputador biológico. Mas hoje é a Cortical Labs que está comercializando seu biocomputador, o CL1, pela primeira vez.

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É impressionante, mas também levanta questões. Poderiam esses minicérebros humanos, esses organoides, um dia desenvolver uma forma de consciência? Se sim, eles seriam capazes de sentir dorsofrer como nós? E se sim, deveríamos conceder-lhes direitos? É aqui que o debate fica realmente interessante. Alguns investigadores, como Thomas Hartung, tranquilizam: enquanto os humanos permanecerem no controlo, estes biocomputadores não representam um perigo. Mas isso não é tudo, espera-se que as questões em termos de propriedade intelectual se tornem cada vez mais importantes à medida que esta tecnologia avança. A chegada dos computadores biológicos ao mercado abre caminho para inúmeros desenvolvimentos e poderá transformar radicalmente vários setores nos próximos anos.

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