
O que fazer quando um paciente que toma antidepressivos melhora? Há muito negligenciada, a questão é agora vista como uma questão médica importante e estão a acumular-se pesquisas sobre como interromper o tratamento. Mas as respostas permanecem incertas e difíceis de aplicar.
“Assim que mudamos ou reduzimos um antidepressivo, isso é uma fonte de ansiedade para a pessoa em questão”, relata Christine Villelongue, copresidente da associação France Depression, à AFP. Contudo, “não há enquadramento: muitas vezes, quando paramos, não há seguimento”.
Depois de várias décadas de uso, os médicos sabem muito bem em que condições prescrever um antidepressivo, qual deles favorecer inicialmente, como avaliar o seu sucesso… Regras precisas são ensinadas e postas em prática.
Mas, quando o paciente melhora, as incertezas se multiplicam. Devemos continuar o tratamento como está, com efeitos secundários que podem acumular-se a longo prazo? Continuar com uma dose baixa? Parar, correndo o risco de uma recaída ou de uma abstinência difícil? E, se sim, de repente ou gradualmente?
Estas questões têm permanecido entre os psiquiatras há vários anos, com o surgimento de um conceito: “desprescrição” que encarna a importância de pensar em parar um antidepressivo, uma consciência que durante muito tempo não era óbvia.
“Ao longo do meu estágio, que concluí muito recentemente, este assunto nunca foi abordado no ensino”, explica à AFP a psiquiatra francesa Maeva Musso, presidente da Associação de Jovens Psiquiatras e Jovens Adictologistas.
Quando os pacientes “expressam o desejo de reduzir os seus tratamentos, isso ainda é muitas vezes interpretado pela profissão médica como uma negação da sua doença”, continua a Sra. Musso, muito envolvida no tema da prescrição.
– Um vasto estudo –
Ela observa que outros países estão mais avançados do que a França, como a Noruega, onde são oferecidas consultas dedicadas à desprescrição, ou a Holanda, onde são autorizadas microdoses de antidepressivos para permitir uma redução muito gradual.
Mas será esta realmente a melhor estratégia, como muitos psiquiatras estão convencidos? A ideia parece intuitiva, mas os especialistas continuam confrontados com uma flagrante falta de dados conclusivos sobre o que fazer.
Neste contexto, um vasto estudo, publicado esta quinta-feira na Lancet Psychiatry, dá finalmente respostas de uma solidez sem precedentes, graças à escala dos dados recolhidos.
Os autores, liderados pelos investigadores italianos Giovanni Ostuzzi e Debora Zaccoletti, avaliaram todos os estudos já realizados para comparar as diferentes opções quando um paciente deprimido melhora, ou seja, mais de 70 ensaios clínicos envolvendo cerca de 17.000 pessoas.
Resultado apresentado pelos pesquisadores: um paciente em que o antidepressivo é interrompido gradativamente não tem maior risco de recaída do que se continuar o tratamento, mas desde que tenha apoio psicológico. A pior opção continua sendo, em todos os casos, a interrupção repentina da medicação.
“Mesmo que os antidepressivos sejam eficazes na prevenção de recaídas depressivas, não há razão para torná-los um tratamento a longo prazo para todos”, conclui a Sra. Zaccoletti, citada num comunicado de imprensa da Lancet.
Mas vários especialistas apelam à prudência: salientam, por exemplo, que uma redução gradual sem apoio psicológico não parece necessariamente mais segura do que uma paragem brusca.
“Mesmo quando um antidepressivo é reduzido muito gradualmente, a interrupção continua associada ao risco de recaída”, alerta o psiquiatra alemão Jonathan Henssler num comentário, também publicado pela Lancet Psychiatry. Segundo ele, os resultados mostram sobretudo “o benefício adicional proporcionado pela psicoterapia”.
No entanto, para muitos pacientes, esse apoio não é uma opção realista, como sublinha a Sra. Villelongue, enfatizando a “deficiência” de cuidadores em França.
As conclusões da Lancet Psychiatry situam-se “num mundo ideal, mas a realidade no terreno não é essa”, avalia. “Às vezes o psiquiatra falta, a gente fica um ou dois meses sem atender. Enquanto isso, se a pessoa está em depressão e não está bem, não tem com quem conversar.”