Pauzinhos, estátuas budistas ou bonecos: Hajime Sasaki diz que os objetos de marfim em sua loja de antiguidades em Tóquio atraem um fluxo constante de turistas vindos da China, onde o comércio desse material é proibido.

O Japão é um dos maiores mercados legais de marfim do mundo e possui estoques de presas importadas antes da proibição do comércio internacional, há mais de 30 anos.

Mas os conservacionistas dizem que os suprimentos japoneses alimentam os mercados negros no exterior, aumentam a procura e minam as proibições em países como a China, destinadas a combater a caça furtiva de elefantes.

De acordo com o Fundo Mundial para a Natureza (WWF), pelo menos 20.000 elefantes africanos criticamente ameaçados são mortos ilegalmente todos os anos pelas suas presas.

Sasaki explica que sua loja discreta, no sofisticado bairro de Ginza, “recebe muitos clientes chineses”.

“Mas os turistas desistem de comprar marfim quando explico que não podem levá-lo para fora do Japão”, acrescenta.

– Comércio ilegal –

Os dados sobre apreensões de marfim, contudo, pintam um quadro muito diferente.

Desde 2008, foram registadas 321 apreensões ligadas ao Japão, representando mais de 3.600 kg de marfim, segundo números citados durante discussões recentes sobre a vida selvagem em Samarcanda (Uzbequistão).

Na reunião da Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e da Flora Selvagens Ameaçadas de Extinção (CITES), que terminou na sexta-feira, quatro países africanos apelaram ao encerramento dos últimos mercados – sem sucesso.

O negociante de antiguidades Hajime Sasaki em sua loja em Tóquio, 4 de dezembro de 2025 (AFP/Arquivos - Kazuhiro NOGI)
O negociante de antiguidades Hajime Sasaki em sua loja em Tóquio, 4 de dezembro de 2025 (AFP/Arquivos – Kazuhiro NOGI)

Burkina Faso, Etiópia, Níger e Senegal denunciaram a “fraca aplicação da lei no Japão”, o que facilitaria o comércio ilegal de marfim proveniente dos stocks japoneses e permitiria o trânsito de outros carregamentos através do país.

Matt Collis, diretor de políticas do Fundo Internacional para o Bem-Estar Animal (IFAW), disse à AFP que parte do marfim provavelmente estava saindo do Japão na bagagem dos turistas.

Enormes apreensões, como a de 710 moedas descobertas em 2023 num carregamento do Japão aparentemente destinado à Tailândia, “também sugerem o envolvimento de redes criminosas organizadas”, acredita Collis.

Estes “vazamentos” japoneses são uma dor de cabeça para a China, que foi durante muito tempo um dos maiores mercados de marfim do mundo antes de proibir o comércio no seu solo em 2017, ao mesmo tempo que os Estados Unidos.

“A China está a fazer o seu melhor para impor a sua proibição e mudar mentalidades, mas temos um país vizinho (Japão, nota do editor) que está a minar estes esforços ao não impor controlos e perpetuar a procura”, lamenta Matt Collis.

– “Conhecimento” –

O marfim já foi amplamente utilizado no Japão para selos pessoais e instrumentos musicais. O país possui reservas privadas de 250 toneladas, que podem ser compradas e vendidas por detentores aprovados dentro das fronteiras.

Na loja de Hajime Sasaki, dezenas de ornamentos finamente trabalhados feitos no Japão, China, África e Europa alinham-se nas prateleiras.

Mas a procura japonesa está a diminuir, em parte devido à “crescente consciência pública” das consequências devastadoras do comércio de marfim, explica Masayuki Sakamoto, director do Fundo Japonês para Tigres e Elefantes.

“Os stocks estão a aumentar no Japão, enquanto a procura na China e noutros lugares persiste”, acrescenta.

Hajime Sasaki, antiquário, mostra objetos de marfim em sua loja em Tóquio, 4 de dezembro de 2025 (AFP - Kazuhiro NOGI)
Hajime Sasaki, antiquário, mostra objetos de marfim em sua loja em Tóquio, 4 de dezembro de 2025 (AFP – Kazuhiro NOGI)

Entre 2011 e 2016, 113 das 148 apreensões de marfim exportado ilegalmente do Japão – cerca de 2,3 toneladas – tinham como destino a China, segundo dados citados na reunião da CITES.

Embora menos procurados do que antes da proibição, estes objectos continuam a ser muito populares na maior economia da Ásia.

Num comunicado apresentado à conferência, o Japão afirma que aplica “medidas de controlo rigorosas” para evitar contribuir para a caça furtiva e o comércio ilegal.

Entretanto, uma proposta liderada pela Namíbia para permitir que os governos vendessem os seus arsenais de marfim foi rejeitada.

Os defensores destas vendas acreditam que os estados deveriam poder vender os seus stocks para financiar a conservação.

“Reutilizar presas de elefante seria melhor (do que destruí-las), gerando rendimento” para proteger os paquidermes e os habitantes de África, diz Sasaki, o negociante de antiguidades.

Mas muitos grupos de defesa dos animais alertam que a retoma das vendas aumentaria ainda mais o comércio ilegal.

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