
Mais de 26 milhões de pessoas correm o risco de se encontrar numa situação de grave insegurança alimentar no início de 2026 na República Democrática do Congo (RDC), num contexto de queda drástica da ajuda internacional, alertou a ONU na quinta-feira.
O leste da RDC, rico em recursos naturais e que faz fronteira com o Ruanda, tem sido assolado por conflitos há 30 anos. A violência intensificou-se desde Janeiro com a captura das cidades de Goma e Bukavu pelo grupo armado M23, apoiado por Kigali.
Esta violência causou milhares de mortes e deslocou milhões de pessoas, agravando uma já grave crise alimentar.
Espera-se que 26,6 milhões de pessoas no país enfrentem “em níveis graves de crise alimentar ou pior no início de 2026“, em comparação com 24,8 milhões em 2025, declararam a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e o Programa Alimentar Mundial (PMA) num comunicado de imprensa conjunto recebido pela AFP na quinta-feira.
Entre eles, 3,9 milhões deveriam estar em situação”emergência alimentar“, em comparação com 3,2 milhões em 2025, especifica o comunicado de imprensa, que se baseia na última análise do IPC (Quadro Integrado de Classificação de Segurança Alimentar), uma organização mandatada pelas Nações Unidas.
As províncias orientais de Kivu do Norte, Kivu do Sul, Ituri e Tanganica concentram 75% destes casos de emergência, acrescenta o texto.
Queda no financiamento humanitário
Tal como outras organizações internacionais, as duas agências alertam para a queda acentuada do financiamento humanitário enquanto se realiza quinta-feira em Paris uma conferência internacional com o objectivo de mobilizar a comunidade mundial face à emergência no leste da RDC.
A FAO afirma que só conseguiu ajudar 217 mil pessoas dos 3,6 milhões previstos para o final de agosto, por falta de financiamento. Está buscando US$ 127 milhões para apoiar 2,4 milhões de pessoas em 2026.
Confrontado com um défice de 349 milhões de dólares até abril, o PAM reduziu a sua ajuda em 2,3 milhões para 600 mil beneficiários este ano, prevendo-se uma interrupção total do abastecimento já em fevereiro, segundo a organização.
“Sem recursos e ações urgentes, milhões de vidas estão em perigo“, disse Cynthia Jones, diretora interina do PMA no país.
A desnutrição infantil também continua a ser uma preocupação, com 3,2 milhões de crianças sofrendo de atraso no crescimento associado à subnutrição crónica, acrescenta o texto.
“A ajuda agrícola de emergência é uma das formas mais económicas de satisfazer as necessidades humanitárias“, suplicou Athman Mravili, representante interino da FAO na RDC, citado no comunicado de imprensa.