
“Trabalhar neste site é extraordinário, porque para onde quer que você olhe, o chão está coberto de pegadas de dinossauros“, exclama Raúl Esperante, do Instituto de Geociências da Universidade da Califórnia. O cientista e sua equipe entregam na revista PLOS Um uma revisão das pegadas do sítio Carreras Pampa, localizado no Parque Nacional Torotoro, na Bolívia. São descritas milhares de pegadas que revelam dinossauros que caminharam, correram ou nadaram em uma região próxima ao litoral.
Mais de 16.000 impressões digitais decodificadas
O sítio Carreras Pampa confirma a riqueza dos depósitos bolivianos em vestígios fósseis, há muito pouco documentados. Aqui estão descritas 16.600 pegadas deixadas por dinossauros terópodes de três dedos. Estão distribuídos por nove setores e abrangem uma ampla gama de tamanhos, desde menos de 10 cm até mais de 30 cm. Algumas pistas são retas, outras mostram curvas, acelerações, paradas ou até mesmo fricções na cauda. Diversas sequências também indicam corrida, identificável pelo alongamento das passadas e pela redução da superfície de apoio.
A maior parte dos traços está orientada no sentido noroeste-sudeste, na mesma direção das ondulações atuais registradas na camada sedimentar. O conjunto sugere movimentos ao longo de uma costa rasa. A ideia de migração não é mantida pelos pesquisadores porque existe “tantas vias orientadas num sentido como no outro, o que corresponde mais a viagens regulares de ida e volta do que a um movimento sazonal“, explica Raúl Esperante.
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Da análise das pegadas verifica-se que o local era muito movimentado (também foram identificados rastos de aves) e que, sem dúvida, muitas espécies diferentes percorriam a área. No entanto, é difícil saber quantas espécies específicas vagavam por lá porque “geralmente é impossível atribuir impressões digitais a um grupo específico“, alerta o cientista.
Evidência de dinossauros nadadores
Os investigadores também descrevem numerosos vestígios de natação, um comportamento raramente documentado e geralmente associado a algumas espécies, como os espinossauros ou Halszkaraptor escuilliei. Neste estudo, os paleontólogos contaram 1.378 pegadas formadas debaixo d’água, algumas são únicas, mas outras formam rastros (280 foram avistadas). Estas pistas permitem-nos documentar a forma como os animais se moviam na água: “Algumas estampas têm espaçamentos muito regulares, sugerindo que o animal apoiava regularmente o fundo com os dedos dos pés enquanto nadava. Outros são isolados e sugerem que o animal tocou o fundo apenas uma vez ou em intervalos irregulares“.
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Essa diferença pode ser devida a variações na profundidade da água no momento da formação das pegadas, ou a uma diferença no tamanho dos animais, podendo os maiores tocar o fundo regularmente. Contudo, não devemos imaginar que este modo de locomoção fosse privilegiado ou dominante. Os dinossauros devem ter se aventurado na água ocasionalmente, por um motivo ainda desconhecido.
Carreras Pampa bate vários recordes mundiais, inclusive de número total de pegadas, trilhas contínuas, trilhas de cauda e trilhas de natação. Esta densidade excepcional, sem dúvida, ainda não está completamente decifrada. Os autores acreditam que uma parte significativa do local ainda precisa ser explorada, assim como outras jazidas bolivianas que poderiam revelar informações comparáveis.