Ele não é falador, Martin Parr. Sorrindo, sim. Mas tagarela, de jeito nenhum. Neste dia 16 de janeiro, ele está sentado à esquerda do sofá, perto da lareira da sala do térreo. Na casa onde vive há mais de trinta anos nas alturas de Bristol, no sul de Inglaterra, o fotógrafo cumpre o exercício da entrevista com uma cortesia tingida de uma pitada de tédio. À medida que a entrevista avança, as suas respostas cada vez mais curtas provocam perguntas cada vez menos elaboradas, pontuadas por silêncios constrangedores.

Bristol, desastre previsto… Devíamos ter sido cautelosos. “Martin Parr não conversa sobre amenidades” – ele não é de falar, disseram, uma, duas vezes, gentilmente insistente, os poucos conhecidos a quem havíamos perguntado sobre o personagem, na véspera de conhecê-lo. No entanto, existem muitas entrevistas com ele. Mas ainda na fotografia quase não há detalhes sobre sua vida – esses pequenos hábitos que definem um temperamento, desenham os traços gerais de um personagem.

Martin Parr, ao longo de décadas de entrevistas, não revelou nada, ou muito pouco. Escolhendo imagens para comentar sua trajetória, destacando algumas de suas fotos para destacar sua evolução como homem ao longo dos anos. Permanecendo um completo desconhecido por trás do ilustre fotógrafo.

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Estes poucos sinais não nos tinham escaldado. Tudo parecia tão fácil… Martin Parr até concordou em nos receber em sua casa, após uma concisa mas eficaz troca de e-mails que assinou “Martinho”, sem intermediário, sem a distância que tantas vezes anda de mãos dadas com a fama; sem os atrasos quase inerentes às pessoas importantes: pergunta enviada às 14h31, resposta recebida às 15h48. Surpreendente, até inesperado, para um fotógrafo cujo nome encarna o estilo a ponto de se tornar um género de fotografia por si só, o brilho berrante das cores, os grandes planos até à náusea, os detalhes intransigentes, a realidade nos seus aspectos por vezes obscenos.

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