
Perante o aumento da negação climática, o presidente do IPCC, Jim Skea, quer recordar “muito claramente” a ciência e a origem humana do aquecimento, numa entrevista à AFP.
A França acolhe até sexta-feira mais de 600 membros do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas, que deverão começar a trabalhar no seu próximo relatório.
“Inequivocamente, os humanos são a causa das alterações climáticas que testemunhamos”, sublinha Jim Skea, o professor escocês que preside o grupo de cientistas mandatado pela ONU.
PERGUNTA: O senhor disse recentemente que era “quase inevitável” que o mundo ultrapassasse o limiar de 1,5°C de aquecimento no curto prazo. Então, qual será a mensagem do seu próximo relatório dentro de alguns anos?
RESPOSTA: “A mensagem é que se quisermos reduzir o aquecimento global para 1,5°C, as decisões a tomar são muito claras. Precisamos de reduções significativas nas emissões associadas à energia e ao uso do solo.
Precisamos também de começar a pensar na remoção de CO2 da atmosfera em grande escala. E há muita falta de conhecimento sobre esse assunto”.
P: A França expressou esta semana o seu apoio ao IPCC face à crescente negação climática. Esse apoio é importante?
R: “É muito importante e bem-vindo ter este nível de apoio do governo francês, de múltiplas origens: o chefe de estado, três ministros. É um nível de apoio significativo e deu muito impulso aos cientistas. Quando falei com eles depois, eles ficaram muito felizes com isso: deu-lhes confiança e entusiasmo para seguir em frente.”
P: Como é que as conclusões do IPCC se destacarão perante o público, apesar da desinformação, quando alguns – como o Presidente dos EUA, Donald Trump – consideram as alterações climáticas uma farsa?
R: “Devemos continuar a comunicar a ciência de forma muito clara. O nosso último relatório teve esta conclusão muito simples: inequivocamente, os humanos são a causa das alterações climáticas que estamos a observar. Devemos enfatizar esta mensagem e podemos apoiá-la com vários tipos de explicações e múltiplas fontes de dados.”
P: O governo dos Estados Unidos está ausente do IPCC e não financia os investigadores que participam no seu trabalho. Mas você não teme que ele bloqueie seus relatórios no momento da aprovação pelos países?
R: “Ainda nos beneficiamos de uma enorme presença americana no IPCC. Temos quase 50 autores nesta reunião, cuja presença é financiada por instituições filantrópicas americanas e que foram nomeados por organizações observadoras dos Estados Unidos…
Quanto às sessões de aprovação, quando terminamos os relatórios, sempre foram difíceis porque os cientistas e os governos têm que concordar em cada palavra e vírgula. E não acho que realmente tenha ficado mais difícil do que era.
Só aconteceu uma vez na história do IPCC que o resumo para os decisores não tenha sido aprovado e a decisão tenha sido adiada para a próxima sessão. E não é recente, foi em 1995. Então sempre foi difícil, mas sempre superamos esses obstáculos”.
P: Países como a França pretendem que o próximo relatório de avaliação do IPCC seja publicado em 2028, antes da COP33 na Índia, o que será a ocasião para uma segunda “avaliação global” dos esforços envidados desde o Acordo de Paris. A Arábia Saudita ou a Índia prefeririam esperar até 2029. Isso importa?
R: Cabe aos governos decidir se o nosso relatório será publicado a tempo do balanço global. Para os cientistas daqui, a questão é se o cronograma é compatível com o tempo necessário para produzir uma avaliação. E, francamente, este tempo não deve ser nem muito curto nem muito longo.”
P: Qual é a sua mensagem para os líderes e o público em geral ao iniciar este novo ciclo de trabalho?
R: Prenda a respiração para ver o que lançaremos em cerca de três anos! Existem novos temas de investigação, novas lacunas no nosso conhecimento que precisamos de explorar, incluindo esta questão: é possível limitar o aquecimento a 1,5°C a longo prazo?