Soma Wanniarachchi já temia esse momento há vários dias. Na quarta-feira, ela tomou coragem e decidiu voltar para casa, para os subúrbios da capital do Sri Lanka, Colombo, devastados pela passagem mortal do ciclone Ditwah.

Quando regressou ao seu bairro de Angoda, esta mulher de 69 anos entrou em pânico. Sua casa e arredores continuam banhados por mais de 30 centímetros de água carregada de lama.

Não sobrou nenhum vestígio da bateria de aquecedores de comida e panelas que ela alugou para morar.

“Pelo menos três bufês desapareceram”, observa ela, lacônica. “Todos os meus utensílios de aço inoxidável provavelmente já chegaram ao Oceano Índico. E minhas cadeiras de plástico também…”

Como todos os seus vizinhos do nordeste de Colombo, Soma Wanniarachchi não teve escolha senão fugir durante a noite de sexta para sábado, quando o rio Kelani subitamente transbordou, inundado pelas chuvas torrenciais transportadas por Ditwah.

“Fiquei até o amanhecer porque sei nadar”, confidencia o lojista, “mas quando a enchente chegou a 2,5 m, tive que sair”.

Inundações e deslizamentos de terra causaram a morte de pelo menos 474 pessoas, segundo o último relatório publicado quarta-feira pela agência de gestão de desastres (DMC), e quase 400 outras ainda estavam desaparecidas.

O número de vítimas ultrapassou a marca de 1,5 milhão em todo o país, tornando Ditwah o desastre mais grave a atingir a grande ilha do sul da Ásia desde o tsunami mortal de 2004.

-Gadou-

Num país que acaba de sair da pior crise económica da sua história, em 2022, o custo da reconstrução promete ser muito elevado. Nada menos que 6 a 7 bilhões de dólares, segundo o governo.

Uma moradora recolhe seus pertences em uma casa inundada em Wellampitiya, perto de Colombo, em 3 de dezembro de 2025 (AFP - Ishara S. KODIKARA)
Uma moradora recolhe seus pertences em uma casa inundada em Wellampitiya, perto de Colombo, em 3 de dezembro de 2025 (AFP – Ishara S. KODIKARA)

Tal como muitos outros residentes de Angoda, Sanjaya Tissara, 31 anos, perdeu muito. Sua casa de dois andares é invadida por lama espessa e viscosa.

“Eu tinha todo um estoque de componentes eletrônicos para a loja de informática que administro quando não estou lecionando”, descreve o professor. “Tive tempo de salvar parte transferindo-o para o primeiro andar, mas o resto se perdeu nas enchentes.”

“Sofremos uma forte enchente em 2016, as águas subiram até um bom metro”, lembra Sanjaya Tissara, “desta vez, chegaram a quase 2 m”.

Em 2016, o transbordamento de Kelani causou 71 mortes.

Graças à recessão, o professor arregaçou as mangas e começou a limpar a casa. Ao lado de sua casa, também atua seu vizinho RMV Latih, 51 anos, empregado em uma empresa petrolífera.

Uma mulher recolhe seus pertences em uma casa inundada, em Wellampitiya, nos arredores de Colombo, Sri Lanka, 3 de dezembro de 2025 (AFP - Ishara S. KODIKARA)
Uma mulher recolhe seus pertences em uma casa inundada, em Wellampitiya, nos arredores de Colombo, Sri Lanka, 3 de dezembro de 2025 (AFP – Ishara S. KODIKARA)

“Pedi a alguns parentes que viessem me dar uma ajudinha porque é impossível fazer tudo isso sozinho”, conta.

Ao seu redor, voluntários e o exército distribuem alimentos. E o governo prometeu uma ajuda de 25 mil rúpias do Sri Lanka (cerca de 75 euros) a cada família cuja casa tenha sido invadida pela água.

Mas RMV Lathi sabe que o trabalho será longo, muito longo mesmo. “Conseguimos salvar alguns móveis mudando-os para cima”, ele sussurra, “mas a cozinha está uma verdadeira bagunça…”

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