Departamento com a maior prevalência de VIH em França, a Guiana luta contra o vírus há 40 anos: os grupos vulneráveis ​​estão sobrerrepresentados entre os doentes devido à precariedade que acentua o comportamento de risco.

No centro de rastreio gratuito da Cruz Vermelha em Caiena, uma média de cinquenta pessoas por dia fazem o rastreio de uma possível infecção sexualmente transmissível (IST).

Em 2024, a ONG realizou 4.579 testes de VIH, dos quais 34 deram positivo. Ou quase um terço de todos os novos casos detectados na Guiana no ano passado.

O departamento tem uma taxa de descoberta nove vezes superior à média nacional. Uma taxa que leva em consideração apenas os casos detectados. “Mas pensamos que existe uma epidemia de VIH escondida”, salienta a Dra. Aude Lucarelli, presidente da Coordenação Regional de Saúde Sexual (Coress) da AFP, poucos dias antes do Dia Mundial da SIDA, celebrado esta segunda-feira.

Cerca de 600 a 800 pacientes com SIDA desconhecem o seu estado serológico.

“Mesmo quando os pacientes vêm para vacinação, oferecemos sistematicamente exames de IST”, explica o diretor do centro de saúde pública da Cruz Vermelha, Karl Kpossou, permitindo assim atingir uma serologia três vezes superior à de França.

O objectivo é travar as cadeias de transmissão neste território de 300.000 habitantes onde 1,1% da população é portadora do VIH, principalmente através da transmissão heterossexual.

A maioria das pessoas recentemente infectadas são jovens, tal como a população da Guiana, metade da qual tem menos de 25 anos.

25% foram detectados em estágio avançado da doença em 2024. A marca de uma precariedade significativa segundo o Dr. Lucarelli: “as pessoas mais vulneráveis ​​consultam quando não têm mais outra escolha”.

– Pausa terapêutica –

Esta precariedade é um dos motores da epidemia, acentuando comportamentos de risco. “A maioria dos nossos recém-diagnosticados são pessoas nascidas no estrangeiro que foram infectadas na Guiana, muitas vezes devido a condições de vida precárias ligadas à viagem migratória”, explica o Dr.

Segundo o presidente do Coress Guiana, as vulnerabilidades económicas e administrativas multiplicam os factores de risco, assim como a violência sexual, que é numerosa aqui com 2,5 vítimas por 1.000 habitantes em 2024 (em comparação com 1,8 em França), segundo o Ministério do Interior.

“Por abrigo, comida, segurança, as mulheres trocam sexo, o que nem sempre é protegido”, ilustra.

A Rede Kikiwi, associação que promove a saúde sexual em particular, cria a ligação entre o hospital e o atendimento domiciliário aos pacientes com IST crónicas, para que estes últimos “possam seguir o seu tratamento”, explica Woodjery Jean, mediador.

Um tratamento bem observado durante um semestre permite atingir a indetectabilidade da carga viral e, portanto, o fim da transmissão do vírus.

Os mediadores da rede fazem “todo o trabalho social de abertura de direitos porque os tratamentos são caros”, sublinha Mustapha Dia, seu coordenador. “Também distribuímos ajuda alimentar. É imperativo comer bem para tolerar o tratamento. No entanto, muitas pessoas o interrompem porque não têm o suficiente para comer”.

A pobreza é, de facto, um factor de perturbação terapêutica. “Quando você está precário, a saúde não é a prioridade”, resume a infectologista Céline Michaud, coordenadora de centros de atendimento terceirizados e hospitais locais no interior da Guiana.

– Tabus –

Nestas áreas isoladas, por vezes acessíveis apenas por via aérea ou canoa, os pacientes são ainda mais vulneráveis ​​e têm grande mobilidade ao longo das áreas de vida transfronteiriças.

Mais de 400 pacientes com HIV – dos quais cerca de 300 são acompanhados regularmente – compõem a fila ativa dos centros terceirizados de prevenção e atendimento, dos quais 40% foram diagnosticados em estágio avançado da doença, quase o dobro do que no litoral. O número de pessoas perdidas no seguimento também é maior: de 10 a 30% dependendo da área.

“É complicado para quem procura comida perder um dia de trabalho enquanto espera na fila do hospital. Complicado também para os mineiros ilegais de ouro que têm medo da polícia”, observa o Dr. Michaud.

O sistema hospitalar também está a esforçar-se por reduzir o fosso geográfico e linguístico entre as populações e os prestadores de cuidados, muitas vezes da França metropolitana, aumentando o número de mediadores poliglotas.

Desde 2017, dois projetos – em Maripasoula, perto do Suriname, e em Saint-Georges, em frente ao Brasil – contando com a mediação associativa permitiram melhorar o acompanhamento dos pacientes que vivem nessas áreas transfronteiriças.

Nestas duas cidades, 60 a 70% dos pacientes seropositivos apresentam sucesso terapêutico, enquanto em Grand-Santi, 80 km a norte de Maripasoula, onde tal sistema não existe, esta taxa atinge apenas 30 a 40%. Longe das metas de 95% estabelecidas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) até 2030.

Com efeito, para a OMS, a epidemia pode ser controlada quando 95% dos pacientes são detectados, 95% têm acesso ao tratamento e 95% alcançam sucesso terapêutico. “Em média, em toda a Guiana, estamos em 95-92-94”, segundo o Dr. Lucarelli.

Mas o VIH continua extremamente estigmatizado, ainda mais em áreas isoladas onde o Dr. Michaud observa estratégias de evitação entre os pacientes: “Os tabus que rodeiam a sexualidade ainda constituem um tecto de vidro”.

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