Corpos de jovens jazem às dezenas, alinhados no asfalto molhado. Alguns dos mortos têm os olhos revirados e a boca entreaberta. Brancos, mestiços, negros, vestidos com boxers simples, com os corpos tatuados, muitas vezes manchados de sangue. Ao seu redor, os habitantes observam em silêncio. Soluços escapam, vários vacilam, dominados pela inquietação. Outros fotografam, filmam, tentam identificar os corpos que os bombeiros vão levando aos poucos em seu caminhão. Mas outros já estão chegando para substituí-los.
Essa enxurrada de cadáveres, que submergiu a praça principal do bairro da Penha, zona norte do Rio de Janeiro, é o trágico desfecho da operação policial realizada na terça-feira, 28 de outubro, a mais mortal da história do Brasil. Segundo relatos ainda incompletos, a intervenção de incrível brutalidade contra o grupo de tráfico de drogas Comando Vermelho teria causado 120 vítimas. Um número estonteante, mesmo para uma cidade há muito acostumada à violência extrema.
Para as famílias das vítimas, esta carnificina tem um rosto: testa larga, barba grisalha, olhar cansado. A de Cláudio Castro, governador do estado do Rio de Janeiro, que enviou 2.500 agentes da polícia militar e civil para atacar as favelas da Penha e do Alemão. Aos 46 anos, este homem zela pelo destino desta região de 6,2 milhões de habitantes desde 2021 tendo, sob sua autoridade, uma das forças policiais mais letais do país, responsável pela morte de 703 pessoas em 2024, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
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