Nas colinas de Corbières, devastadas pelo maior incêndio em França em meio século, centenas de árvores carbonizadas erguem-se sob o sol de outono: uma paisagem desolada, mas um recurso que, apesar da catástrofe, continua explorável.
Stéphane Villarubias, diretor territorial do Escritório Nacional de Florestas (ONF), olha para uma árvore com a casca enegrecida pelo fogo que suas equipes acabaram de derrubar para garantir o rastro.
Apesar da camada carbonizada, por dentro “a madeira está sã, ainda vemos um pouco de resina escorrendo, um pouco de seiva, o que significa que o material está totalmente aproveitável nesta fase”, observa.
No passado mês de agosto, um total de cerca de 16 mil hectares distribuídos por 17 concelhos foram cobertos pelas chamas, o que corresponde a uma área de vegetação efetivamente ardida de 11.133 hectares, segundo a contagem efetuada pela ONF após a extinção do incêndio.
É “mordor”, resume Villarubias, numa alusão ao país negro, reino de Sauron, o maligno, em O Senhor dos Anéis, de JRR Tolkien.
“Nunca tivemos volumes tão grandes, exceto nas Landes com o incêndio em torno da duna de Pilat”, sublinha o chefe do Gabinete de Aude, Ariège e Pirenéus Orientais, que estima pelo menos “entre 60 e 80.000 m3” a massa de madeira a tratar.
– Pronto para usar –

Na sua área de intervenção, nomeadamente florestas nacionais, propriedade do Estado, e florestas municipais a pedido das comunidades, a ONF procura “aproveitar da melhor forma” este recurso que mantém valor de mercado.
É “transformável em cavacos florestais (cavacos triturados) para caldeiras” ou “quando a madeira é reta pode ser serrada para fazer tábuas destinadas à fabricação de paletes”, detalha Villarubias.
A empresa Gard Environnement Bois Energie (EBE) especializou-se gradualmente neste material ingrato, que as serrações ou as fábricas de papel não querem. “Durante quinze anos, todos os grandes incêndios, de La Clape (um dos maciços de Aude, nota do editor) a Carcassonne, fomos nós que lidamos com eles”, explica o seu diretor, Bernard Philip, à AFP.
“Esta manhã”, explica, “tivemos dois camiões da Airbus em Toulouse”, onde as bolachas serão queimadas nas caldeiras do gigante aeronáutico.
A madeira reaproveitada de incêndios desta forma tem uma vantagem significativa: já está seca e pronta para uso, o que evita armazenamento dispendioso.
Além disso, recorda Filipe, o preço da energia lenhosa “varia consoante o nível de humidade. A madeira queimada tem um nível de humidade mais baixo, por isso vendemos melhor”, cerca de 60 a 70 euros por tonelada.
– “Energia verde” –

No caso do grande incêndio de Corbières, a EBE não comprou madeira através da ONF, mas a empresa já intervém há várias semanas nas florestas de proprietários privados, onde o desastre de verão foi mais significativo, resultando em “dezenas de milhares de toneladas de madeira” afetadas, segundo Philip.
“Eles tiram toda a madeira queimada da minha fazenda (…) não tenho que fazer o trabalho e, em troca, recuperam a madeira para poder explorá-la”, indica Laurent Lignère, viticultor de Saint-Laurent-de-la-Cabrerisse, que vê nisso “uma verdadeira parceria”.
E acima de tudo, disse à AFP, “é uma abordagem virtuosa, vamos queimar madeira que estava condenada à destruição, ia apodrecer no local”. “É de alguma forma energia verde”, acredita a operadora, numa das comunidades mais afetadas pelo incêndio.
Do lado da ONF, a operação de recuperação também prossegue, ainda que, dada a aparência do terreno, nem todas as áreas ardidas sejam aproveitáveis.
Depois de mapeados e localizados os volumes a comercializar, realizou-se um primeiro leilão, que permitiu vender cerca de 13 mil m3 de madeira.
Mais dois virão em breve.
Em última análise, os recursos gerados cairão parcialmente nas mãos dos municípios afetados “para investimentos, seja na floresta ou nas estradas”, segundo Villarubias, para empreendimentos ou compra de tanques, permitindo um melhor combate aos incêndios.