Dirigido em 1928 por Michael Curtiz e produzido pelo todo-poderoso Darryl F. Zanuck, o épico bíblico “A Arca de Noé” foi tristemente lembrado pelas filmagens de sua sequência do famoso Dilúvio, que se transformou em tragédia…

Warner Bros.

A história do cinema está repleta de exemplos de incidentes graves ocorridos no set, às vezes levando a resultados tragicamente desastrosos. O exemplo recente da filmagem de luto do filme Rust foi um lembrete brutal disso.

Na Era de Ouro do Cinema, os diretores eram deuses e os produtores exerciam um poder quase absoluto em situações de vida ou morte. Uma época em que não existiam regras de segurança, o que só viria mais tarde. Foi isso que os atores e atrizes aprenderam, a despeito deles, num famoso épico bíblico lançado em 1928, produzido pelo magnata Darryl F. Zanuck e dirigido por Michael Curtiz: A Arca de Noé.

Fazendo um curioso paralelo na sua narrativa, que mistura a famosa história bíblica de Noé e do Dilúvio, com a dos soldados da Primeira Guerra Mundial, A Arca de Noé é representativa da transição do cinema mudo para o cinema falado, embora seja essencialmente um filme híbrido, denominado “parcialmente falando”, que utilizou o novo sistema de som Vitaphone em disco. A maioria das cenas é silenciosa, acompanhada por trilha sonora e efeitos sonoros sincronizados, principalmente as cenas bíblicas, enquanto algumas cenas apresentam diálogos.

Como certas produções de cinema mudo dantesco, a produção deste filme recrutou entre 3.500 e 7.500 figurantes, incluindo um muito jovem e iniciante John Wayne, que também passou algum tempo neste filme trabalhando no departamento de adereços.

“Eles iam matar algumas pessoas com essas toneladas de água e essas decorações enormes caindo sobre elas”

O destaque do filme, que ocorre nos últimos dez minutos, é o próprio Dilúvio. Curtiz queria que a cena fosse o mais autêntica possível e que os figurantes parecessem genuinamente aterrorizados. Para atingir este nível de realismo, despejaram cerca de 2 milhões de litros de água em centenas de figurantes, sem os avisar e sem verificar se sabiam nadar. Os resultados foram além do esperado… E acabaram sendo os mais trágicos possíveis.

Hal Mohr, o diretor de fotografia do filme, disse: “Quando começaram a falar sobre como fazer isso, eu protestei. Não como cinegrafista, mas como ser humano, droga, porque parecia que iam matar algumas pessoas com aquelas toneladas de água e aqueles enormes cenários caindo sobre elas.”

Warner Bros.

De acordo com Mohr, embora a produção tenha convocado dublês que “sabia o que estavam fazendo”ela também usou centenas de outros figurantes que não tiveram absolutamente nenhum treinamento e que literalmente lutaram por sua (sobrevivência). Três mortes foram registradas. Um figurante teve a perna amputada, enquanto um dos principais atores do filme, George O’Brien, perdeu completamente vários dedos do pé… John Wayne, que também apareceu na sequência do Dilúvio, escapou, mas nunca falou publicamente sobre essa tragédia.

Você pode ver a sequência no filme, disponível na íntegra no YouTube. Isso começa a partir de 1h22.

Apesar deste trágico acontecimento, nem Michael Curtiz nem Darryl F. Zanuck ficaram preocupados. As investigações conduzidas após o acidente e os registros legais mantidos pela Warner Bros. não contêm nenhuma menção concreta às mortes reais.

Foi na sequência destas filmagens que observámos a implementação antecipada de protocolos de segurança aplicáveis ​​a todo o setor. As produções começaram a usar cada vez mais dublês profissionais, reforçando os dispositivos médicos nos sets e estabelecendo padrões mais rigorosos para avaliação de riscos.

Contudo, como lembrou este artigo do GuardianHollywood vai esperar até 1982-1983, e a tragédia ocorrida no set do filme Twilight Zone (duas crianças mortas, assim como o ator Vic Morrow, em um acidente de helicóptero), para realmente apertar os parafusos em termos de segurança. O que, infelizmente, não evitou outras mortes acidentais nas décadas seguintes…

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